Como precificar um serviço
Precificar um serviço é somar tudo que ele consome antes de decidir quanto cobrar. Em assistência técnica, "tudo" tem quatro partes, e a maioria das lojas enxerga só uma: o preço da peça.
É por isso que tanta assistência tem movimento cheio e caixa vazio. O preço parece bom porque cobre a peça e sobra alguma coisa — mas essa sobra ainda precisa pagar a hora do técnico, a estrutura da loja e os consertos que voltam em garantia.
Este artigo mostra a conta completa, com um exemplo numérico do começo ao fim.
O que entra no preço de um serviço?
Quatro parcelas. Faltando qualquer uma, o preço fica abaixo do custo real.
| Parcela | O que é | Erro comum |
|---|---|---|
| Custo da peça | O que você pagou, incluindo frete | Usar o preço de tabela do fornecedor, sem frete |
| Hora de bancada | Tempo do técnico × custo da hora dele | Não contar a própria hora quando o dono é o técnico |
| Rateio da estrutura | Parte do custo fixo que cada serviço precisa cobrir | Tratar aluguel e energia como "já estão pagos" |
| Índice de garantia | Provisão para o conserto que volta | Ignorar até a garantia virar prejuízo visível |
A parcela mais esquecida é a hora do dono. Quando o proprietário também conserta, é comum não atribuir custo ao próprio tempo — e aí a loja "dá lucro" pagando o salário dele com o que deveria ser margem.
Como calcular o custo da hora de bancada?
Some o custo mensal de quem trabalha na bancada e divida pelas horas efetivamente produtivas.
O detalhe que muda tudo é o segundo número. Um técnico contratado não produz 220 horas por mês: descontando atendimento no balcão, compra de peça, conversa com cliente e tempo parado esperando aprovação, as horas de bancada real ficam bem abaixo disso.
Uma referência prática: considere entre 60% e 70% da jornada como tempo produtivo. Se o custo total do técnico é R$ 3.000 por mês e ele produz 130 horas efetivas, a hora custa cerca de R$ 23.
Se o dono é o técnico, o raciocínio é o mesmo: defina quanto você quer receber por mês pelo trabalho de bancada e divida pelas horas produtivas. Sem isso, não existe como saber se a loja se paga.
Como fazer o rateio do custo fixo?
Divida o custo fixo mensal pelo número médio de serviços do mês. O resultado é quanto cada atendimento precisa cobrir antes de gerar lucro.
Entram no custo fixo: aluguel, energia, internet, água, sistema, contador, telefone e qualquer despesa que existe mesmo sem nenhum cliente entrar na loja.
Se a loja tem R$ 4.000 de custo fixo e faz 200 serviços no mês, cada serviço carrega R$ 20 de estrutura. É um número que quase nunca aparece na conta de quem precifica no olho — e é justamente ele que separa a loja que cresce da que só se mantém.
Vale revisar esse rateio a cada trimestre. Se o volume cai e o custo fixo continua, o rateio sobe, e o preço precisa acompanhar.
Como calcular o índice de garantia?
Olhe quantos serviços de um tipo voltam e provisione essa proporção no preço de todos.
Se a cada dez trocas de tela de um modelo, uma volta em garantia, o preço das dez precisa cobrir o custo da décima primeira. Na prática, isso significa acrescentar cerca de 10% ao custo daquele tipo de serviço.
O índice varia por tipo de conserto e por fornecedor de peça — e é aí que ele fica útil de verdade. Quando um fornecedor tem índice de retorno muito acima dos outros, a peça barata dele deixa de ser barata. O registro de qual lote foi usado em qual ordem de serviço é o que permite enxergar isso.
Exemplo: quanto cobrar por uma troca de tela
Números ilustrativos, só para mostrar o encadeamento da conta. Use os seus.
- Custo da peça: R$ 240,00, com frete rateado
- Hora de bancada: 40 minutos × R$ 23/hora = R$ 15,33
- Rateio da estrutura: R$ 20,00
- Índice de garantia: 10% sobre o custo da peça = R$ 24,00
Custo total do serviço: R$ 299,33.
Esse é o número abaixo do qual você perde dinheiro. A margem entra depois: cobrando R$ 420,00, sobram R$ 120,67, ou 29% sobre o preço de venda.
O que costuma surpreender é o quanto o custo verdadeiro se distancia do preço da peça. Quem precifica olhando só os R$ 240 e cobra R$ 320 acha que está ganhando R$ 80 — quando na verdade está ganhando cerca de R$ 20.
Devo cobrar taxa de avaliação?
Depende do tipo de aparelho, mas em serviços que exigem desmontagem a resposta costuma ser sim.
A avaliação consome hora de bancada mesmo quando o orçamento é recusado. Sem taxa, cada recusa é tempo produtivo que ninguém pagou — e em loja de volume alto isso soma.
A prática que funciona: cobrar a taxa informando antes, e abatê-la do valor final caso o serviço seja aprovado. O cliente entende, porque a lógica é justa, e você para de subsidiar diagnóstico de quem não vai fechar.
O que não pode é cobrar sem avisar previamente. Taxa comunicada só na hora da recusa vira reclamação, com razão.
Perguntas frequentes sobre como precificar um serviço
Qual margem é considerada boa em assistência técnica?
Não existe número universal, porque depende do custo fixo e do volume de cada loja. O que importa é conhecer o custo total do serviço — peça, hora, rateio e garantia — e decidir a margem sobre ele. Margem definida sobre o preço da peça, apenas, quase sempre esconde prejuízo.
Devo cobrar o mesmo preço para todos os modelos de aparelho?
Não. O custo da peça varia muito entre modelos, e o tempo de bancada também. Precificar por tabela única faz você perder no aparelho difícil e ficar caro no fácil. Uma tabela por faixa de aparelho resolve sem virar burocracia.
Como saber se estou cobrando barato demais?
Compare o custo total calculado com o que você cobra. Se a diferença não paga a sua retirada mensal ao longo do mês, o preço está abaixo do necessário. O sinal mais comum é loja cheia com caixa apertado.
Preciso de sistema para precificar certo?
Não para calcular — a conta cabe numa planilha. O sistema ajuda em outro ponto: manter a peça amarrada ao serviço, para que a margem real apareça sem retrabalho e para que o índice de garantia por fornecedor seja visível.
Com que frequência devo revisar os preços?
A cada trimestre, ou sempre que o custo da peça mudar de forma relevante. O rateio de estrutura também muda quando o volume cai — e é nesse momento, justamente, que muita loja segura o preço e piora a situação.
O desconto pode sair da margem?
Só se você souber qual é a margem. Desconto dado sobre um preço formado no olho costuma consumir o lucro inteiro do serviço. Com o custo total calculado, você sabe exatamente até onde pode ir.
Não sabe quanto sobra em cada conserto?
No FAST DESK a peça fica amarrada à ordem de serviço, então a margem de cada atendimento aparece sozinha — sem planilha paralela.
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